segunda-feira, 13 de julho de 2009

Alhandra e o clã do Acais




Em 1864, dois anos após a extinção dos aldeamentos indígenas na freguesia de Alhandra, inicia-se a medição e demarcação das terras indígenas na Paraíba, dividindo-as em lotes e entregues com seus respectivos títulos aos índios, na qualidade de posseiros. Segundo a documentação oficial da época, Inácio Gonçalves de Barros, ultimo regente dos índios de Alhandra, recebeu 62:500 braças quadradas de terras, em um lugar denominado Estivas. Documentos demonstram, ainda, a insatisfação do regente, através de pedido de restituição das terras dos índios.

Para os juremeiros da região nordeste, Alhandra é uma das mais fortes referências mitológicas e simbólicas da prática do catimbó e da ciência da jurema. Essa tradição foi cultuada e mantida pelo mestre Inácio e seus descendentes.

Mestre Inácio era irmão da mestra Maria Gonçalves de Barros, a primeira Maria do Acais e pai do meste Casteliano Gonçalves e de Maria Eugenia Gonçalves Guimarães, a segunda e prestigiosa Maria do Acais.

A segunda Maria do Acais foi casada com o português José Machado Guimarães, com quem teve nove filhos, entre eles o mestre Flósculo Guimarães, casado com a mestra Damiana. Antes de ir morar em Alhandra, Maria residia no Recife, onde era catimbozeira respeitada, o que justifica o fato de ter sido a herdeira das terras do Acais, pois segundo a tradição da família, o trabalho de um mestre deveria ser continuado por um descendente, herdando mais do que terras, a tradição da família. Damiana, falecida em 1978, era filha de Casimira, sobrinha de Maria e a ultima mestra do Acais.

Maria chegou ao Acais por volta de 1910. Construiu uma casa para residência e, em frente, a capela para São João Batista. Por traz da casa, sob os pés de jurema existentes, cultuava suas cidades e seus mestres. Um pouco mais em baixo, em uma casa de taipa, realizava suas mesas de jurema. Seu filho, mestre Flósculo, foi sepultado em 1959 atrás da capela. Sobre seu túmulo foi colocada uma escultura em concreto de um tronco de jurema.

Maria do Acais foi referida por vários escritores, como: Arthur Ramos, Roger Bastide, Gonçalves Fernandes. Porém nenhuma referência é mais fortes e significativas que o ponto cantado nas muitas sessões de jurema espalhadas por esse nordeste:

Eu dei um grito
Tão longe
E ninguém me atendeu.
Mestra Maria do Acais
A melhor mestra sou eu.
Venho de tão longe
Eu venho é trabalhar
Trazendo as correntes
Sereias do mar.
Mestra Maria do Acais
Pra que mandou
Me chamar.

Maria do Acais faleceu (ou se encantou) em 1937.


Para saber mais:
VANDEZANDE, René. Catimbó. Dissertação de Mestrado. Recife: UFPE-PIMES, 1975.
ASSUNÇÃO, Luiz. O reino dos mestres. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.
SALLES, Sandro Guimarães de. À sombra da jurema. Um estudo sobre a tradição dos mestres juremeiros na umbanda de Alhandra-PB. Dissertação de Mestrado. Natal: UFRN-Pgcs, 2004.

A foto do Acais foi cedida pela FCP UMCANJU e Profa. Ana Júlia Cardoso (João Pessoa-PB). Meus agradecimentos.

7 comentários:

  1. Olá, Luiz,

    Parabéns pelo blog. Muito bom mesmo!
    Abraço, Araceli

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  2. Caro Luiz.
    Achei extraordinário teu Blog. As informações sobre Alhandra e o Clã do Acai, foram muito importantes para mim. Nasci em Alhandra, sou descendente dos Guedes Alcoforado, onde tenho uma tia-avó, que era catimbozeira e foi perseguida pela polícia naquela época. Atualmente, estou colhendo informações para fazer parte de um romance, parte intuitivamente recebida, sobre, penso eu, de minha ascendencia familiar. Por isto, repito, de muito me ajudou tuas informações.
    Além do merecido parabéns pela criação do Blog, te aconselho a continuar com a obra.
    Que estejas sempre na Santa Paz do Pai Eterno.
    Clovis Guedes Costa

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  3. Não lhe conheço, afinal não conheço muita coisa...sou mestra de jurema, assim como meu pai que tanto falava com saudades da sua "avo" Maria do Acais , que na realidade era sua "bi" que ele conheceu e a considerava como tal, no,dia dos seus 12 anos ele viu partir aquela que ele tanto amava, ou seja em 1937. Vou procurar nos meus documentos para tentar colocar em ordem minha cabeça e seus escritos. Obrigada por fazer viver essa maravilha que é a Jurema

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  4. Maria do Acais, faleceu na madrugada de 13 de Outubro de 1937, e sepultada dia 14. Segundo meu pai seu primeiro bis neto ele estava nesse dia completando 12 anos de idade. Obrigada.
    Abraços e obrigada por falar sobre a Jurema e as terras de Alhandra.

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  5. Castiliano Gonçalves de Barros e não Casteliano.

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  6. SOU BISNETA DE MARIA DO ACAÍS,QUANTAS SAUDADES, DO SÃO JOAO, SÃO PEDRO, QUE PASSEI LÁ. FOGUEIRAS DE 5, METROS.CANTÓRIA, BANHO NO RIO, CIRANDA, CONVERSA COM UM INDIO, CHAMADO JULIO, INFãNÇIA FELIZ. primos que só encontavamos nas férias da
    festa de SÃO JOAO BATISTA. (PEGUEM NA BANDEIRA, DE SAO JOAO, NA SANTA BANDEIRA É DE SENHOR SÃO JOAO, QUE BANDEIRA E ESTA QUE VAMOS LEVAR, É DE SÃO JOA~BATISTA PARA SE ALENVANTAR.)

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  7. PEÇO LICENÇA PARA LEVAR ESTA INFORMAÇOES PARA MAS JUREMEIROS, QUE COMO EU PRECISA SABER DA RAIZ E SUAS ESSENCIAS NA JUREMA. EU COMO JUREMEIRA CONSAGRADA DENTRO DA RAIZ DO ACAIS AGRADEÇO TUDO QUE AQUI ENCONTREI EMBORA MINHA JUREMEIRA SEMPRE NOS ENSINA SOBRE NOSSO POVO ME CHAMO SANDRA E SOU CONSAGRADA PARA O MESTRE BOIADEIRO E A MESTRA PAULINA PELA JOANA MESTRA JUREMEIRA DA PARAIBA.

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