segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Os negros do Riacho – vinte anos depois


A Editora da UFRN está lançando o livro Os negros do Riacho. A pesquisa foi apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN como dissertação de mestrado. Trata-se de um estudo etnográfico sobre um grupo específico e suas representações de identidade, seguindo um pressuposto teórico-metodológico amparado nos conceitos de grupo e identidade tal como usados nos estudos da antropologia no campo das relações interétnicas (Barth, 1976) e cultura como processo em permanente construção, dotada de significados passíveis de interpretação (Geertz, 1978).


No início dos anos de 1980, quando decidi estudar os negros do Riacho, no município de Currais Novos/RN, praticamente nada existia escrito sobre eles, exceto as referencias feitas pelos historiadores nomeando as comunidades negras e uma reportagem jornalística publicada em um jornal local em que apresentava dados gerais e ressaltava o caráter de isolamento do grupo. Na cidade, os negros eram vistos de forma estereotipada, quase sempre como bêbados, perigosos e brigões. Essas noções também habitavam meu imaginário que desde jovem ginasiano acompanhava, de minha casa, com o olhar curioso, o vai e vem das pessoas do Riacho em minha rua, principalmente no dia da feira semanal. Chamava minha atenção o fato que andava em pequenos grupos de três ou quatro pessoas. Lembro de mulheres altas e magras com potes de barro sobre a cabeça e à tarde voltavam com sacos de mantimentos. Anos mais tarde, na escolha temática para a dissertação, não tive dúvidas: o campo empírico era a comunidade dos negros do Riacho e o objetivo, estudar seu modo de vida e o processo de construção identitária do grupo.


O trabalho concluído dava-me a certeza que era mais que uma reflexão acadêmica sobre o modo de vida, a luta pela terra, a construção e o sentido da identidade. A narrativa histórica e de vida dos negros do Riacho, agora textualizada, poderia contribuir através de uma ação educativa para a desconstrução das noções estereotipadas sobre o grupo, além de abrir o fio na lacuna existente para o conhecimento das comunidades negras no estado do RN.


O trabalho proporcionou imediatamente ações institucionais: a primeira, se deu através de encontros pedagógicos com professores da rede municipal de ensino de Currais Novos, em que os resultados do estudo foram apresentados e discutidos com o grupo docente, visando à transferência dos conteúdos para o espaço escolar. A idéia de que o conteúdo pudesse ser trabalhado pelos professores de forma transversal, perpassando disciplinas, não teve continuidade, limitando-se aquele encontro com os professores. Vieram outras ações: da igreja católica local, do Estado, movimento social, igreja protestante, etc.


Apesar dessas interferências, a comunidade do Riacho segue o seu cotidiano de miséria social, em busca da sobrevivência, enfrenta os preconceitos da sociedade envolvente, aprimora suas relações e alianças assistenciais e paternalistas.


Mais tarde, pesquisadores se voltam aos negros do Riacho para refletir sobre a cultura, as condições sócio-econômicas e a história. Seguindo os rastros de minha pesquisa, estes estudos reafirmam o interesse empírico e a importância da reflexão sobre questões que envolvem as comunidades negras rurais em um mundo branco. No entanto, somente em 1994 é que vai circular uma versão, em formato artesanal, de minha dissertação sobre os negros do Riacho, promovida pelo setor de reprografia do CCHLA da UFRN.


A terra do Riacho, correspondente a menos de quatro hectares, é seca, coberta por pedregulhos e tabuleiro, dificultando sua fertilidade. Apesar das condições dadas pela natureza algumas roças para alimentação são mantidas durante o curto período do inverno, ficando as pessoas, durante o restante do ano, disponível para o trabalho alugado ou entregues a sorte da política publica assistencial.


A população tem crescido, estando atualmente em torno de 150 pessoas, predominando uma população jovem. o tem crescido, estando atualmente em torno de 150 pessoas, predominando uma populaçoblemO crescimento demográfico, a inexistência de terras apropriadas para agricultura, somados à falta de recursos financeiros para implementação de atividades que visem a sustentabilidade das unidades familiares e, consequentemente, do grupo, tem como conseqüência o abandono de atividades na agricultura, o assalariamento do trabalho e o crescente número de uma população jovem sem ocupação. Pensar a questão da terra é fundamental por sua implicação com a reprodução destas famílias. É necessário ressaltar que, vinte anos depois, a reprodução social do grupo continua dramática.


Mas a terra não é somente fator de produção, ela é, ao mesmo tempo, um bem social para a reprodução física e um espaço de construção da cultura. Nela os seus ocupantes plantam, criam, coletam, caçam, organizam festejos, desenvolvem rituais, brincam e estabelecem relações sociais que vinculam os indivíduos entre si e dão sentido de pertencimento aos seus ocupantes.

O que é ser negro do Riacho e o viver nas terras do Riacho parece continuar instigando em busca da compreensão dos contextos produzidos nas relações entre brancos e negros na sociedade brasileira.

5 comentários:

  1. Querido Luiz, você está a todo vapor. Guarde um exemplar desse seu livro para mim!!!
    Aqui no Sul da França o vento mistral mostra sua força e me embala na leitura dos derradeiros cursos de Merleau-Ponty no Collège de France.

    Um abraço com saudades e muita admiração pelo seu trabalho
    Petrucia Nóbrega

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  2. Petrúcia: que bom saber suas notícias e que td tá indo bem aí. Aproveite os cursos e o que o mundo acadêmico pode oferecer. Vc merece! Qdo vc chegar entrego teu exemplar dos "Negros do Riacho". Seu estímulo chega em boa hora. Forte abraço e minha amizade. Luiz.

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  3. Ô coisa boa!

    Realmente sentimos falta de um estudo mais detalhado sobre os Negros do Riacho, um grupo ainda pouco conhecido em suas manifestações.

    Eu, enquanto currais-novense, sinto-me feliz por eles, na certeza de que um estudo dessa natureza contribuirá, além de vários outros motivos, para desconstruir certos estigmas ainda existentes.

    Parabéns pelo trabalho e um grande abraço!

    P.S.: Caro Luíz, o Ponto de Leitura Casarão de Poesia tem muito interesse em adquirir um exemplar desse livro para o seu acervo... ainda não temos nada relativo à história de Currais Novos, quiçá aos Negros do Rosário. Gostaríamos de disponibilizar este estudo à comunidade. Como fazemos?

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  4. Iara: prazer de ter seu registro aqui no blog. Fico feliz pela visita. Pois é, esse trabalho sobre os negros do riacho é tb uma forma de contribuir para a história de Currais Novos. Terei o maior prazer em enviar um exemplar desse livro e mais outros que publiquei, para compor o acervo do Casarão. Aguarde que estarei enviando. Grande abraço, Luiz Assunção

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  5. olá Professsor Luiz. Sou Cantora Potiguar mas moro em Curitiba ja tem 6 anos...preciso conversar com o senhor sobre uma pesquisa que estou começando pra um show sobre o Jacinto Silva, canto e compositor de Coco.
    o Josenilton Tavares de NAtal foi quem me indicou o senhor.
    Também estou pesquisando a vida e a obra de Jackson do Pandeiro e Bezerra da Silva que se intitulava Rei do coco quando chegou no Rio de Janeiro.
    aguardo seu contato.
    meu e-mail é cidairam2@yahoo.com.br

    grande abraço !!!!

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