sábado, 5 de dezembro de 2009

Lábios-espelhos

Gosto muito da poesia de Marize Castro. Para além de uma técnica apurada, o que me encanta é a forma como ela fala da vida, o sentimento posto sutil em meio a palavras, rimas e frases para falar de desejos mais íntimos – o gozo, a tristeza, em foro privado (tornado sagrado) ou público. Aquele íntimo sentimento transforma-se em desejo de múltiplos sujeitos.


Quero dividir a beleza de alguns escritos que retirei de seu mais recente livro Lábios-espelhos.


Estrangeira

Abriga-me em suas coxas

Pois perdi a rota.

Por erro, talvez.

Raro destino, quem sabe.

Fui além de mim.

Afastei-me de casa.

Confundi-me com outras.

Surpreendi-me.

Os fios que teci na sua escuridão

Tornaram-me seta e luz.

Mas estrangeira do que sempre fui.


À espera

Porque nesta casa nada se oculta, eu te chamo.

Entre a vigília e o espelho, eu te espero.

Amo as palavras.

Por elas também virei homem.

Vi fúrias parindo fêmeas ávidas de linguagem.

Mulheres que deslizam.

Entregam-se. Desobedecem.

Dividem suas casas com os pássaros.

Mulheres que guardam a senha:

fechar a porta a qualquer invasão.

Em silêncio, deixa cair

crucifixo, rosário, camafeu.

Nenhum véu. Nenhuma ilusão.


Devolva-me

Devolva-me a cólera, a lanterna mágica,

que transportei comigo enquanto te amei.

Devolva-me a morte, a doença, a saúde,

o caos, o cais, as âncoras, o segredo,

teus ataques me deixaram forte

teus gozos me atingiram a alma

me fizeram odiar o amor.

Devolva-me a fantasia, as árvores sólidas

plantadas à margem de um delicado homem

que caminhava certo para a sabedoria dos pássaros.

Devolva-me o néctar, o túmulo dos milagres

a liberdade dos escândalos, os bosques, a lei da botânica,

a letargia da não-paixão,

o doce repouso nas águas da noite.

Um comentário:

  1. amo os versos de Marize...tenho Lábios-espelhos e continuo encantada...Devolva-me é um dos meus preferidos!

    abraços!

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