quarta-feira, 6 de junho de 2012

Cultura não e-vento

Natal, 05 de Junho de 2012 
A Exma. Sra. Rosalba Ciarlini 
Governadora do Estado do Rio Grande do Norte 

Historicamente a preocupação com a Cultura, principalmente no Nordeste do Brasil, não tem sido muito presente nos planos e projetos dos Governos que se sucedem no comando dos nossos Estados. Muitas lutas têm sido travadas pelos artistas, intelectuais e produtores culturais que, através de suas organizações, discutem e elaboram propostas para serem apresentadas aos governantes. Com vosso governo não está sendo diferente, as organizações dos artistas, entre elas o Fórum de Cultura do Rio Grande do Norte e a Rede Potiguar de Teatro, têm promovido um debate democrático e participativo na tentativa de apresentar propostas junto à Secretaria Extraordinária de Cultura e à Fundação José Augusto. Tais propostas objetivam colaborar com a elaboração de uma Política Cultural que realmente responda às necessidades da classe produtora de cultura do nosso Estado. Entretanto, infelizmente, não temos recebido atenção aos nossos pleitos, quando muito nossas propostas recebem respostas distorcidas, como foi o caso dos editais lançados por vossa gestão e que não contemplam, em seu conteúdo e forma, as reivindicações da classe artística e cultural. Passados já 16 meses de Governo, o que temos visto é uma sucessão de “é-ventos” que contribuem apenas para a autopromoção de uma falsa política cultural praticada por vossa gestão. A política cultural que desejamos não se resume ao “é-vento”, ela está ligada à formação de platéia, ao incentivo dos grupos e coletivos culturais em todos os níveis, dando-lhes condições de sobrevivência para exercer sua prática, ao diálogo permanente com os que fazem arte no nosso estado, de forma sistemática, aberta e democrática, com convocação oficial. 

Como acreditar em editais que se propõem a abrir espaços públicos, como por exemplo, o Teatro Alberto Maranhão, sem, no entanto, lhes fornecer as condições técnicas para um aproveitamento pedagógico que esta ocupação poderia ensejar? Se V. Ex.ª tiver a paciência de ler o edital de ocupação do TAM, perceberá além de sua inviabilidade técnica, a falta de respeito no tratamento com “os novos artistas” (a quem o edital deve contemplar) quando, por exemplo, coloca duas apresentações no mesmo dia, desconhecendo que as mudanças técnicas de um espetáculo para outro não são como as mudanças de cena, destas que vemos em novelas. Em uma casa de espetáculos essa mudança requer tempo para ajustes técnicos de luz e cenário. E este é apenas um exemplo das distorções do edital. 

Como aceitar o Edital para a realização dos Autos, que continua descontextualizado de uma prática cultural, limitando-se apenas ao “é -vento”? Outrossim, não há neste edital nenhuma ação complementar que proporcione aos atores, atrizes e diretores envolvidos, a formação ou desenvolvimento mais sólido de seus fazeres artísticos. 

Como aprovar uma sucessão de “é-ventos” que gasta o dinheiro que deveria ser destinado para uma política cultural consistente? Acreditamos que em vossa Plataforma de Governo haveria uma preocupação com a sociedade civil, enquanto co-participe, na construção do projeto do Plano Estadual de Cultura. Confiamos em seu discurso proferido na ocasião do evento Cultura em Debate realizado durante sua campanha, em que V.Exa. se comprometeu com uma política de fomento de base, pautada nas reais necessidades dos públicos, artistas e produtores. Nossa preocupação é lhe informar que embora tenhamos nos colocado à disposição dos órgãos responsáveis pelas ações culturais do Estado, não constatamos o comprometimento com esta sua promessa de campanha. Agora que V.Exa. anuncia mudanças nas pastas do governo, talvez fosse a oportunidade para também e mudar a forma como vem tratando a cultura no nosso Estado. Reiteramos a nossa disposição de contribuir com as ações que venham verdadeiramente mudar a prática viciada da política de “é-ventos”. E, conclamamos, nessa oportunidade, a união de todos os setores da cadeia cultural e o povo norte-riograndense para reivindicar uma proposta que possa realmente significar o “novo”, dentro de uma Política Cultural a ser desenvolvida no Rio Grande do Norte. 

Atenciosamente, 
REDE POTIGUAR DE TEATRO 
#CulturaNãoéVento

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