sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Texto de apresentação escrito pela Professora Dra. Maria Helena Villas Boas Concone, da PUC-SP, para o livro “Em casa de catiço”


O rico universo das religiões afro-brasileiras, investigado com competência e profundidade por Marcos Queiroz, nos oferece a oportunidade de mergulhar num livro cheio de encantos. A apresentação da obra é quase um thriller; o convite para acompanhar o autor nas “horas mortas” pelas ruas de Natal e pelas casas de catiço é aceito de imediato por nós, leitores, envolvidos que somos pelo chamado do mistério.  

O livro Em casa de catiço traz como subtítulo etnografia dos exus na Jurema. Essa forma quase singela de nomear esconde de fato um trabalho minucioso, mas que vai muito além da minúcia cuidadosa. Marcos mostra sutileza nas perguntas que faz, nas respostas que encontra e no modo de encontra-las. Busca as narrativas míticas presentes nas falas dos seus interlocutores, no desempenho das entidades ali incorporadas, nos pontos cantados e nas cerimônias religiosas. Especialmente, inova no modo de dialogar graficamente as falas diversas: de autores, da sociedade local e dos adeptos das diferentes casas visitadas. Sua primeira grande pergunta é: Que símbolos e arquétipos são acionados na composição dos personagens exus, no contexto umbandista local sob a influência do culto da Jurema? 

As suas respostas articulam o local e o mais além – do particular ao universal. Em termos nacionais, ele escolhe uma figura emblemática que aponta para os processos socioculturais da construção, das rupturas, da continuidade, das interlocuções e empréstimos, das misturas. Exu se mostra uma representação bastante boa da realidade sociocultural brasileira – somatório de influências conflitantes e, não obstante, articuladas.  

As palavras com que o autor encerra sua apresentação podem bem ser as nossas palavras finais e o início do percurso de leitores diversamente interessados: “Convido-o, leitor, a seguir os meus passos. Alicio para que me acompanhe nessa trajetória. Nela vamos nos aventurar, como eu me aventurei. Vamos surpreender, metermo-nos na vida do povo do santo e também na do povo da rua”. Aqui começa a parceria com os leitores.

 

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