domingo, 6 de novembro de 2016

A busca da África no candomblé




A busca da África no candomblé: tradição e poder no Brasil

Stefania Capone

Rio de Janeiro: Contra Capa Livaria; Pallas Editora, 2004.
 

Este é um livro de raras qualidades intelectuais e textuais, capaz de dialogar simultânea e diretamente, em planos distintos, com os pressupostos da “tradição antropológica” francesa e com as literaturas brasileira e anglo-americana sobre os cultos de possessão em geral. Entretecido à luz de um longo e detalhado percurso etnográfico demarcado pela figura de Exu ao longo do século XX no Brasil, Stefania Capone monta e discute seus argumentos com base não só na observação participante, mas também em entrevista e em detalhada documentação iconográfica.
Coo tema central desses argumentos, as relações de poder na construção da legitimidade nos cultos afro-brasileiros, desembocando na demonstração da irredutível, e histórica, constituição mutua entre a “tradição dos orixás” e seus “antropólogos”. Ainda que esse ponto tenha sido abordado antes e depois deste trabalho, a presença do denso cotidiano das casas de cultuo, com seus jogos de poder, dá-lhe uma outra dimensão que revela o intenso uso dos achados desses jogos. Neste ponto de chega, vale enfatizar ainda o belo tom de objetividade alcançado pela autora na permanente reflexão sobre sua própria trajetória de mais de uma década em interação com casas de candomblé e instituições acadêmicas em nosso país.
Longe de olhar estrangeiro que tenta redimir a estranheza do mundo nas quimeras atribuídas ao outro que tenta decifrar ou dominar, Stefania Capone procura explicitar os limites epistemológicos de seu trabalho como elemento de análise dos fluxos e das trocas presentes na permanente recriação das tradições hegemônicas de uma África que teria originado a suposta pureza de parte do candomblé praticado no Brasil e deixado as pegadas a serem “corretamente” refeitas pelos antropólogos que a ele se agregam. Sem pretender a exaustão e a completude de sistema auto-explicativos, A busca da África no candomblé é uma importante inflexão a via de acesso ao entendimento critico da profundidade histórica desse mundo em “crioulização” e “mistura” dos novos movimentos sociais da crença e do sagrado, e por isso, mais que lido, deve ser continuamente retomado em atenção às tensões atribuídas ao futuro das religiões.

Antonio Carlos de Souza Lima

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