terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Entrelaçando ciências


Dezembro se inicia (04/12) com a apresentação do trabalho de conclusão do curso de licenciatura em Ciências da Religião – UERN, da aluna Flaviana Maia da Rocha de Sena Cunha – mãe Flavinha de Oxum, a jovem mãe do Ilê Axé Dajô Obá Ogodô (Casa do Axé e da Justiça do Rei Xangô), militante do movimento social e participante de coletivos ligados as comunidades tradicionais de terreiro. 

Entrelaçando ciências: gênero e possessão a partir da memória discursiva de duas gerações da Casa de jurema Mestre Carlos (Extremoz-RN)” é o título deste trabalho que foi orientado pelo Prof. Dr. Genaro Camboim Lopes de Andrade Lula (UERN) e contou com a comissão de avaliação formada pela Profa. Dra. Antoinette de Brito Madureira (UFRN) e os professores doutores Luiz Assunção (UFRN) e Mailson Cabral (UERN).  

Amparada por referências bibliográficas em torno das categorias de gênero e possessão, a pesquisa realizada tem por foco “compreender como a possessão com entidades espirituais, em destaque, as femininas, atualizam sentidos do cuidado, da autoridade espiritual e da resistência no corpo-juremeiro”. A opção por uma metodologia qualitativa e etnográfica segue um percurso de campo em que a própria autora compartilha espaços vividos, diálogos, conhecimentos e reflexões que vão sendo tecidas no cotidiano e no texto escrito.

Além da introdução e conclusão, na qual explicita, respectivamente, a proposta da pesquisa, a questão principal, as referências bibliográficas e categorias com as quais tece o trabalho, como as de gênero e possessão (Birman, Hayes, Lages, Queiroz, Lewis) e jurema sagrada (Assunção, Brandão e Rios, Souza, Silva, Ramos), o capítulo denominado de “entrelaçando ciências e saberes” apresenta a Casa de Jurema Mestre Carlos, território encantado e campo da pesquisa; as vozes e as narrativas de duas gerações, a de Mestre Melquisedec e Mãe Preta, e a geração de Larissa, Canniggia e da própria autora.

As considerações finais do estudo revelam as relações de gênero no universo religioso, atravessando “o cotidiano ritual, reconfigurando papéis espirituais e sociais”. Destaca que “o diálogo entre as gerações mostra que a tradição juremeira se sustenta pela memória coletiva e pela capacidade de reinvenção, confirmando o sagrado como espaço de criação e resistência”. E que especificamente sobre as experiências de possessão, estas “expressam negociações de poder, cura e pertencimento”.  

O trabalho de conclusão de curso de Flaviana Maia da Rocha de Sena Cunha precisa ser conhecido, lido, pesquisado, por todas e todos, pelo público acadêmico e das comunidades tradicionais de terreiro. Em breve estará disponível no repositório institucional da UERN.

Por último, quero destacar a importância deste trabalho em sua qualidade teórica-metodológica, mas também na escolha temática, na escritura do texto e articulações das referências bibliográficas trabalhadas. E, sobretudo, o exemplo positivo que significa esse momento do diploma acadêmico, em uma universidade pública de qualidade, em especial, para mãe Flavinha e as comunidades de terreiro.     

 

 


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