Dezembro se inicia (04/12)
com a apresentação do trabalho de conclusão do curso de licenciatura em Ciências
da Religião – UERN, da aluna Flaviana Maia da Rocha de Sena Cunha – mãe
Flavinha de Oxum, a jovem mãe do Ilê Axé Dajô Obá Ogodô (Casa do Axé e da
Justiça do Rei Xangô), militante do movimento social e participante de
coletivos ligados as comunidades tradicionais de terreiro.
“Entrelaçando ciências:
gênero e possessão a partir da memória discursiva de duas gerações da Casa de
jurema Mestre Carlos (Extremoz-RN)” é o título deste trabalho que foi orientado
pelo Prof. Dr. Genaro Camboim Lopes de Andrade Lula (UERN) e contou com a
comissão de avaliação formada pela Profa. Dra. Antoinette de Brito Madureira
(UFRN) e os professores doutores Luiz Assunção (UFRN) e Mailson Cabral (UERN).
Amparada por referências
bibliográficas em torno das categorias de gênero e possessão, a pesquisa
realizada tem por foco “compreender como a possessão com entidades espirituais,
em destaque, as femininas, atualizam sentidos do cuidado, da autoridade
espiritual e da resistência no corpo-juremeiro”. A opção por uma metodologia
qualitativa e etnográfica segue um percurso de campo em que a própria autora
compartilha espaços vividos, diálogos, conhecimentos e reflexões que vão sendo
tecidas no cotidiano e no texto escrito.
Além da introdução e
conclusão, na qual explicita, respectivamente, a proposta da pesquisa, a
questão principal, as referências bibliográficas e categorias com as quais tece
o trabalho, como as de gênero e possessão (Birman, Hayes, Lages, Queiroz,
Lewis) e jurema sagrada (Assunção, Brandão e Rios, Souza, Silva, Ramos), o capítulo
denominado de “entrelaçando ciências e saberes” apresenta a Casa de Jurema
Mestre Carlos, território encantado e campo da pesquisa; as vozes e as
narrativas de duas gerações, a de Mestre Melquisedec e Mãe Preta, e a geração
de Larissa, Canniggia e da própria autora.
As considerações finais do
estudo revelam as relações de gênero no universo religioso, atravessando “o
cotidiano ritual, reconfigurando papéis espirituais e sociais”. Destaca que “o
diálogo entre as gerações mostra que a tradição juremeira se sustenta pela
memória coletiva e pela capacidade de reinvenção, confirmando o sagrado como
espaço de criação e resistência”. E que especificamente sobre as experiências
de possessão, estas “expressam negociações de poder, cura e pertencimento”.
O trabalho de conclusão de
curso de Flaviana Maia da Rocha de Sena Cunha precisa ser conhecido, lido,
pesquisado, por todas e todos, pelo público acadêmico e das comunidades
tradicionais de terreiro. Em breve estará disponível no repositório
institucional da UERN.
Por último, quero destacar a
importância deste trabalho em sua qualidade teórica-metodológica, mas também na
escolha temática, na escritura do texto e articulações das referências
bibliográficas trabalhadas. E, sobretudo, o exemplo positivo que significa esse
momento do diploma acadêmico, em uma universidade pública de qualidade, em especial, para
mãe Flavinha e as comunidades de terreiro.

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