sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Contribuições aos estudos sobre religiões afro-brasileiras


O recente livro publicado pela Editora da UFRN - “Em casa de catiço: etnografia dos exus na Jurema” completa uma lista de três importantes estudos realizados em contexto acadêmico, sob minha orientação, tendo como temática o culto da Jurema e o universo das religiões afro-brasileiras. 

Em casa de catiço, o autor Marcos Queiroz, realiza uma etnografia sobre o complexo mundo dos exus e suas relações com a jurema. O estudo realizado a partir de pesquisa e trabalho de campo em três terreiros localizados na cidade de Natal, faz ainda uma detalhada revisão bibliográfica e incorpora com densidade e rigor a compreensão dos pais e mães-de-santo sobre a prática religiosa e as entidades objeto do estudo. O estudo recebeu o Prêmio de Monografias sobre o tema cultura afro-brasileira do Ministério da Cultura.  

Os trabalho de amor e outras mandingas, de Kelson Oliveira, trata das experiências mágico-religiosas vividas por diferentes sujeitos adeptos e frequentadores que se movem pelo conjunto de quatro terreiros de umbanda da cidade de Limoeiro do Norte, Ceará. Ao explorar a noção de trabalho e a experiência que envolve os sujeitos durante o processo de busca por respostas às questões que se colocam em suas trajetórias, o autor apresenta o complexo e dinâmico universo religioso da umbanda e suas interfaces com outras práticas religiosas, como a jurema no interior cearense. O trabalho recebeu o Prêmio do Governo do Estado do Ceará pela temática de estudos da cultura.   

À sombra da jurema encantada, de Sandro Guimarães de Salles, procura compreender o encontro entre a tradição dos mestres juremeiros e a umbanda, tendo como campo de estudo o cenário religioso de Alhandra, Paraíba. O trabalho traz significativas contribuições sobre o legado indígena, o clã do Acais e suas interfaces com o universo mítico e simbólico ali constituído.  

O tema da jurema não é o único elemento que aproxima esses estudos. Em comum eles também possuem a escolha por explorar questões pouco refletidas nos estudos das religiões afro-brasileiras, a detalhada pesquisa, o envolvimento com o campo (os terreiros), o respeito pelos diferentes sujeitos, sua efetiva presença no texto construído e uma análise feita com densidade. 

Os trabalhos foram apresentados originalmente como dissertação de mestrado na UFRN e tiveram como avaliadores as professoras doutoras Maria Helena Villas Boas Concone (PUC-SP), Patrícia Birman (UERJ), Mundicarmo Ferretti (UFMA) e Eliane Tânia de Freitas (UFRN).


 
 

 

De volta as aulas

Esta semana a UFRN iniciou seu primeiro semestre letivo.

Pluralidade cultura e educação” é o nome de uma das disciplinas que estou responsável de ministrar para a turma de licenciatura do curso de Ciências Sociais. Tendo como referência os estudos da antropologia sobre cultura, procurar-se-á refletir sobre alteridade e pluralidade cultural a partir de alguns dos documentos do MEC, sobretudo aqueles que norteiam a proposta de educação para o ensino fundamental e ensino médio, como também propiciar uma reflexão sobre a prática pedagógica do ensino de sociologia em contexto escolar.

No decorrer do curso, serão estudados  os documentos: “parâmetros curriculares nacionais”, “temas transversais”, a Lei 10.639 e a Lei 11.645, entre outros.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Entrevista com o cineasta cearense Karim Aïnouz


Novo filme de Karim Aïnouz


Não sou especialista em cinema, apenas gosto de ver filmes e estou sempre lendo referências a produção cinematográfica, como acompanho a divulgação de alguns festivais de cinema pelo mundo afora. Tudo por puro prazer. No cenário brasileiro considero o cineasta cearense Karim Aïnouz um destaque, por alguns elementos impressos em sua obra, como os temas sociais abordados em seus filmes, não os expondo de forma exótica ou folclórica, os personagens – demasiadamente belos e humanos, a experiência cotidiana vivida ao máximo, o tratamento dado à fotografia e a música. 

Seu mais recente filme, denominado “Praia do Futuro” foi selecionado para a competição oficial do Festival de Cinema de Berlim (Alemanha), que ocorre entre os dias 6 e 16 de fevereiro. 

Rodado em Berlim, Fortaleza e no Mar do Norte, o filme conta a história do salva-vidas Donato (Wagner Moura), que deixou o Brasil por uma paixão que acaba o levando à Alemanha e a uma nova vida. Ele desaparece para a família durante dez anos, deixando tudo para trás, até seu irmão mais novo (interpretado por Jesuíta Barbosa), resolver ir atrás do irmão em Berlim. 

Segundo publicou o diretor Karim Aïnouz, Ayrton considera seu irmão mais velho como um herói, um ídolo. E esta parece ser também a temática do filme: “Meu filme fala de homens fortes, heróis, por assim dizer, que tiraram suas máscaras e tiveram a coragem de viver suas vidas, de superar os obstáculos que encontram pela frente e se arriscar. É um filme sobre coragem e sobre medo, sobre como o medo devora a alma”. 

No Brasil a previsão de estreia é para maio.

Outros filmes do cineasta cearense Karim Aïnouz:
Madame Satã
O Céu de Suely
Viajo porque preciso, volto porque te amo

sábado, 18 de janeiro de 2014

Tombamento do Terreiro Oxumaré – Salvador, Bahia


Toda casa religiosa afro-brasileira, em suas diferentes concepções e linhagens, carrega consigo um inestimável patrimônio histórico e simbólico, construído em contextos sociais adversos e através de um rico processo de vivências, trocas, compondo um complexo universo cultural em que se guarda a memória, as experiências e perspectivas de todo um povo.  

O Estado brasileiro, através do Ministério da Cultura – IPHAN oficializou neste dia 15 de janeiro, a aprovação do tombamento do Terreiro Oxumaré, em Salvador, Bahia, como patrimônio cultural brasileiro.    

Oxumaré é orixá do movimento e dos ciclos vitais que geram as transformações. É símbolo da riqueza, da continuidade e da permanência. Na solenidade, que contou com a presença de autoridades, políticos e das as Ialorixás Stela de Oxóssi e Carmen de Oxalá, o babalorixá Pecê, representando a Casa, lembrou as origens do terreiro e seus fundamentos. Pediu proteção aos orixás e disse: "a conquista não é só do terreiro, mas do povo de santo da Bahia e do Brasil". "Precisamos ser respeitados dentro de um país que nosso povo construiu. Não só pela culinária, ou conhecimento de música, mas também pela forca espiritual."  

Alem deste terreiro, o Iphan reconheceu em tombamentos a Casa Branca, Ilê Axé Opô Afonjá, Gantois, Alaketu e Bate-folha, todas em Salvador (Bahia), e a Casa das Minas Jejê, em São Luís (MA).

 

 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Texto de apresentação escrito pela Professora Dra. Maria Helena Villas Boas Concone, da PUC-SP, para o livro “Em casa de catiço”


O rico universo das religiões afro-brasileiras, investigado com competência e profundidade por Marcos Queiroz, nos oferece a oportunidade de mergulhar num livro cheio de encantos. A apresentação da obra é quase um thriller; o convite para acompanhar o autor nas “horas mortas” pelas ruas de Natal e pelas casas de catiço é aceito de imediato por nós, leitores, envolvidos que somos pelo chamado do mistério.  

O livro Em casa de catiço traz como subtítulo etnografia dos exus na Jurema. Essa forma quase singela de nomear esconde de fato um trabalho minucioso, mas que vai muito além da minúcia cuidadosa. Marcos mostra sutileza nas perguntas que faz, nas respostas que encontra e no modo de encontra-las. Busca as narrativas míticas presentes nas falas dos seus interlocutores, no desempenho das entidades ali incorporadas, nos pontos cantados e nas cerimônias religiosas. Especialmente, inova no modo de dialogar graficamente as falas diversas: de autores, da sociedade local e dos adeptos das diferentes casas visitadas. Sua primeira grande pergunta é: Que símbolos e arquétipos são acionados na composição dos personagens exus, no contexto umbandista local sob a influência do culto da Jurema? 

As suas respostas articulam o local e o mais além – do particular ao universal. Em termos nacionais, ele escolhe uma figura emblemática que aponta para os processos socioculturais da construção, das rupturas, da continuidade, das interlocuções e empréstimos, das misturas. Exu se mostra uma representação bastante boa da realidade sociocultural brasileira – somatório de influências conflitantes e, não obstante, articuladas.  

As palavras com que o autor encerra sua apresentação podem bem ser as nossas palavras finais e o início do percurso de leitores diversamente interessados: “Convido-o, leitor, a seguir os meus passos. Alicio para que me acompanhe nessa trajetória. Nela vamos nos aventurar, como eu me aventurei. Vamos surpreender, metermo-nos na vida do povo do santo e também na do povo da rua”. Aqui começa a parceria com os leitores.

 

Em casa de catiço


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Em casa de catiço


O ano começa com boa notícia: a Editora da UFRN acaba de editar o livro “Em casa de catiço: etnografia dos exus na Jurema”, de Marcos Queiroz.
O livro aborda o tema das representações construídas sobre os exus no universo religioso afro-brasileiro, mais particularmente em suas relações com o mundo da Jurema.
O cenário e os personagens centrais estão situados em três espaços religiosos da cidade de Natal-RN: o Centro Espírita Oxum Opará, no bairro Potengi; o Centro Espírita Ogum Beira-Mar, no bairro de Lagoa Azul e o Centro Espírita Xangô Mafilomã, no bairro das Quintas.
A partir de um trabalho minucioso de leitura das referências bibliográficas, que mencionam exu, e de exaustiva pesquisa de campo, o estudo realizado por Marcos Queiroz, ao destacar a presença do culto da Jurema na concepção e prática religiosa local, traz novos elementos para a compreensão da dinâmica do universo umbandista. Sem perder de vista as interseções Candomblé/Xangô(Nagô)/Umbanda/Jurema, considerando os exus (entidades espirituais) como produtos do imaginário umbandista, o autor elabora leituras sobre o discurso dos religiosos e evidencia um rico universo dos exus presentes num contexto marcado pelo culto da Jurema.
Em casa de catiço foi originalmente dissertação de mestrado apresentada, sob minha orientação, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRN. Posteriormente, em 2010, foi premiada na categoria “dissertação com o tema cultura afro-brasileira”, pela Fundação Cultural Palmares (Ministério da Cultura).
Convido o leitor a seguir os passos do autor pelos caminhos do povo do santo e dos exus, decifrar seus códigos, encantar-se, compreender as representações produzidas e desvendar as elaborações construídas por mulheres, homens e entidades espirituais.
  

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Chegada de Caboclo


Chegada de Caboclo

Maria Cecília Vasconcelos

 
 

O vento desliza silencioso

Nas veredas e entre os galhos

De juremas, pereros, mufumbos

Que se esfregam entre si

Terra vermelha e seca

Sobre ela, estende-se um imenso tapete escuro

A vegetação cinza, parece esturricada

Pela incandescência da luz

Mas continuam resistentes para a nova estação

O barulho d’água a escorrer

Ressoa do ribeirão

Hipnotiza e acalma

Levanta-se como numa fina corrente

Em meio ao calor que emana da terra

Em respostas as provocações do sol

Ouço pisadas sobre folhas

O ritmo acelera

As pisadas aumentam

Os pássaros saem em revoada

São vários pares de pés

Ouço gritos graves e piados

Estou em meio à mata fechada

Uma flecha atravessa o meu corpo

Sinto uma aldeia inteira dentro de mim