Preta
velha dá o pão
Preta
velha dá o vinho
Preta velha
no terreiro
Vai
abrir nossos caminhos
A festa
dos pretos-velhos é uma celebração religiosa muito comum na Umbanda e presente
em algumas casas de Candomblé. Ela homenageia os pretos-velhos, entidades
espirituais associadas à sabedoria, paciência, acolhimento e cura espiritual.
No Centro Pai Oxalá, casa de umbanda situada no bairro Potengi, em Natal/RN, o dia 13 de maio possui um significado especial. Sob a condução de mãe Socorro (Maria do Socorro Ângelo), realiza-se a tradicional festa em homenagem aos pretos-velhos, com destaque para a preta-velha tia Maria do Rosário, guia espiritual da dirigente da casa.
Conheci mãe Socorro por intermédio de sua mãe de santo, mãe Terezinha (Terezinha de Oliveira Pereira), filha de Oxalufã e dirigente do Centro Cabocla Yara Vovó Sinhá, localizado no Conjunto Soledade II. Naquele período, no início dos anos 2000, eu desenvolvia um projeto de mapeamento dos terreiros da zona norte de Natal e cheguei a participar de toques semanais e de diversas festas do calendário religioso realizadas em ambas as casas. Entre as celebrações dedicadas aos santos e às entidades espirituais, destacava-se a festa dos pretos-velhos, tanto pela organização quanto pela inclusão da reza do rosário e pela devoção a tia Maria, evidenciando uma busca espiritual marcada pela interação entre o universo umbandista e o catolicismo popular.
A festa
inicia-se pontualmente às 18 horas. O salão principal encontra-se especialmente
decorado, destacando-se uma mesa ornamentada com flores e outros elementos que
evocam as entidades homenageadas. A celebração desenvolve-se em três momentos
distintos: o primeiro consiste na abertura com a defumação, seguida dos toques
dedicados a Ogum e aos caboclos. A gira conta com a participação de vinte e
cinco pessoas, com predominância feminina, além de três ogãs e um coro formado
por três mulheres cantoras. No segundo momento, entoam-se cantos para os
pretos-velhos e, por fim, deixam o salão e seguem para a capela onde realiza-se
o rosário de Tia Maria.
Para
encerrar a noite, uma mesa abundante é cuidadosamente preparada para a partilha
coletiva dos alimentos — ninguém pode ficar sem comer. A fartura se revela na
feijoada acompanhada de carne, arroz e farofa, servida no primeiro momento, e nos
bolos, na canjica, na pamonha, nas cocadas, no pão, no café, nos sucos, entre
outros alimentos que complementam a refeição. A distribuição de comida,
presente após determinadas celebrações religiosas e festividades das religiões
afro-brasileiras, integra a compreensão do mundo religioso e das relações
sociais construídas no âmbito do terreiro, assim como ocorre em diversos
festejos populares brasileiros.









