quinta-feira, 25 de março de 2010

Uma mulher: Carolina Maria de Jesus

15 de julho de 1955 – Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar.


Esse texto abre o livro “Quarto de despejo, diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus.


Quarto de despejo procura retratar as condições de vida dos menos favorecidos, mais especificamente as adversidades do cotidiano de uma catadora de lixo, sua dimensão humana e capacidade de expressão dos sentimentos mais íntimos, como a dor; tudo descrito em linguagem direta e de forma muito simples.


Carolina Maria de Jesus, mineira, negra, de aproximadamente quarenta anos de idade, três filhos, moradora de uma favela na cidade de São Paulo. Contam seus biógrafos que certo dia encontrou cadernos e resolveu transformá-los em diários. Anos mais tarde, um jornalista ao fazer uma reportagem sobre a favela, descobriu Carolina e seus diários. Quarto de despejo foi publicado em 1960 e traduzido para treze idiomas.


Procuro a seguir transcrever alguns trechos do seu diário:


À noite ... eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses.


... dei banho nas crianças e preparei para sair. Fui catar papel, mas estava indisposta. Vim embora porque o frio era demais. Quando cheguei em casa era vinte e duas e trinta. Liguei o rádio. Tomei banho. Esquentei comida. Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem.


Todos tem um ideal. O meu é gostar de ler.


Eu sou muito alegre. Todas manhãs eu canto. Sou como as aves, que cantam apenas ao amanhecer. De manhã eu estou sempre alegre. A primeira coisa que faço é abrir a janela e contemplar o espaço.


... Liguei o rádio para ouvir o drama.


... Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: Faz de conta que eu estou sonhando.


Isto não pode ser real num país fértil igual ao meu.


Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. (...) É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela.


Levantei às seis horas. Estava furiosa com a vida. Com vontade de chorar, porque eu não tenho dinheiro para compra pão. (...) Fui catar estopas e fui catar papelões. Ganhei trinta cruzeiros. Fiquei triste, pensando: o que hei de fazer com trinta cruzeiros? Estava com fome. Tomei uma média com pão doce. Voltei para a favela.


Eu tenho muito serviço. Não posso preocupar com homens. Meu ideal é comprar uma casa decente para os meus filhos. Eu, nunca tive sorte com homens. Por isso não amei ninguém. Os homens que passaram na minha vida só arranjaram complicações para mim. Filhos para eu criar.


1 de janeiro de 1960

Levantei às cinco horas e fui carregar água.


Carolina morreu em 1977, pobre e esquecida.

Um comentário:

  1. Para mim, que fui criada por uma mulher batalhadora, mãe solteira e pobre são sempre comoventes os relatos das histórias de vida de mulheres que, assim como Carolina, lutaram todos dias para dar significado as suas vidas.

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