domingo, 31 de janeiro de 2010

Festa de Caboclo

O caboclo, entidade espiritual presente na Umbanda e no culto da Jurema, remete à idéia do índio colonizado, envolvido com a sociedade branca dominante e como o resultado do entrecruzamento de diferentes etnias. Pertence a um universo de referência muito amplo, que inclui o caboclo índio flecheiro, o caboclo feiticeiro e as índias tapuias.


A diversidade de tipos de caboclos está representada nos pontos cantados. Existem os caboclos que são identificados pela cor da pena, como Pena Branca, Vermelha, Preta. Existem caboclos que são identificados por sua origem tupi ou tapuia. Alguns pontos fazem referência ao rei dos índios.


Na Jurema, os caboclos são associados às representações da natureza, como ervas, raízes, folhas, correspondendo para cada caboclo um tipo de erva. Eles são os primeiros a serem chamados nas giras e mesas de Jurema.


O mês de janeiro é consagrado a caboclo e toda casa que cultua Jurema realiza um toque, conhecido como festa de caboclo, em que se canta para estas entidades e, em especial, aquelas que têm assentamento no terreiro. No salão principal do terreiro um altar é arrumado com imagens dos caboclos cultuados, ao lado de recipientes contendo mel, vinho, além de muitas frutas, completam os arranjos. Durante o toque, o mel e o vinho são distribuídos, mas o ponto alto do ritual é quando as entidades vão saborear as diversas frutas postas no altar e as compartilham com os presentes, compondo um grande banquete em que toda a comunidade religiosa é participante.


Caboclo

Pega a tua flecha

Pega o teu badoque

O galo já cantou

O galo já cantou

Na Aruanda

Oxalá te chama

Para a tua aldeia

Okey caboclo!


Apresentamos a seguir algumas fotografias feitas em festa de caboclo nos terreiros: Centro Espírita Oxum Opará (Natal/RN, 2010) e Centro Senhor Oxosse (Juazeiro do Norte/CE, 1998).

Festa de Caboclo



Mãe Leó distribui um chá de raízes e altar com comida para os caboclos (Centro Espírita Oxum Opará, Natal/RN, 2010).

Festa de Caboclo



Fotografias da festa de caboclo realizada no Centro Senhor Oxosse, em Juazeiro do Norte/CE, 1998.

Festa de Caboclo



Fotografias da festa de caboclo realizada no Centro Senhor Oxosse, em Juazeiro do Norte/CE, 1998.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Prêmio Cultura Hip Hop

O Ministério da Cultura lança o Prêmio Cultura Hip Hop 2010 – Edição Preto Ghóez, que premiará 128 iniciativas voltadas para a promoção e o fortalecimento da Cultura Hip Hop no Brasil.


O Edital premiará as iniciativas, realizadas individualmente ou em grupo, divididas em cinco categorias diferentes: Reconhecimento, Socioeducativa (Escola de Rua), Geração de Renda, Difusão/Conhecimento (5° Elemento) e Difusão - Menções Honrosas.


A Cultura Hip Hop, cujas primeiras manifestações, no Brasil, datam do início dos anos 1980, surgiu nos Estados Unidos da América e, atualmente, pode ser encontrada em todo o território brasileiro, principalmente nas periferias das regiões metropolitanas. Mas o Hip Hop também chegou ao interior do Brasil, marcando presença, por exemplo, em assentamentos e acampamentos rurais, aldeias indígenas e comunidades quilombolas. Com isso, absorveu a diversidade da cultura brasileira, criando uma identidade própria, com múltiplas variações, e tornando-se uma linguagem artística das mais representativas da nossa cultura.


Preto Ghóez, o homenageado:


Márcio Vicente Góes nasceu em São Luis, no Maranhão. Teve uma infância pobre e começou a trabalhar com apenas 10 anos para ajudar a mãe a sustentar a família. Mas a paixão pela música também foi despertada cedo e, em 1993, ele já estava montando a sua primeira banda de Hip Hop, a Habeas Corpus, que, em 1994 passou a se chamar Skina. Em 1996, o artista formou um novo grupo musical. Surgia, então, a Milícia Neo Talmarina que durou até 1998. Neste ano, Preto Ghóez desfez o grupo e criou a Clã Nordestino que gravou um único CD, a Peste Negra do Nordeste, e durou até a sua morte.


Além das bandas, Preto Ghóez fundou os Movimentos Hip Hop Organizado Brasileiro (MHHOB), Favelafro, do Maranhão e Questão Ideológica, do Piauí. O artista escreveu ainda o livro A Sociedade do Código de Barras - O Mundo dos Mesmos. Com a banda Clã Nordestino Ghóez percorreu todo o Brasil e também fez shows em países como a Itália e a França.


Como líder do movimento e um dos fundadores do MHHOB, Preto Ghóez, visitou todo o país fazendo palestras. Depois de sua morte, o compositor, cantor e escritor, recebeu várias homenagens. Dois Pontões de Cultura foram batizados com o seu nome. O primeiro, em Teresina, recebeu o nome de Pontão Preto Ghóez Vive e o segundo, em Rondônia, de Pontão de Rondônia Preto Ghóez - Povos da Floresta. Uma rua da cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo, também ganhou, em 2006, o nome do líder do movimento Hip Hop no Brasil.


Fonte: Comunicação SID/MinC

Mais informações: Telefone: (61) 2024-2379; E-mail: identidadecultural@cultura.gov.br

www.cultura.gov.br/sid

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

QUEM É DE AxÉ, DIZ QUE É (Who is AxÉ, says it is. Qui est AxÉ, affirme qu'il est)

Maria Leopoldina Cavalcante Oliveira


Mãe Leó – Maria Leopoldina Cavalcante Oliveira tem 62 anos de idade e desde os 18 anos entrou na vida do santo, como ela afirma. Seus pais legítimos eram católicos e, só depois, passaram a freqüentar o espiritismo. Sua avó possuía uma mesa de cura e foi a primeira a interpretar seu mal estar como de origem espiritual. Durante seu desenvolvimento espiritual entrou em contato com conhecidos pais de santo da cidade, entre eles José Clementino e Pai Rivaldo. Em Recife, pelas mãos de Pai Biu, fez o ori com Oxum, na nação nagô (xangô pernambucano). Anos depois completou suas obrigações como Yiá, sob a condução de Pai Marcone Correa Lins, do Loteamento José Sarney, em Natal.


O Centro Espírita Oxum Opará foi aberto por volta de 1991, na própria residência da sacerdotisa, mas antes disso atendia aos enfermos que a procuravam nesse mesmo local, em uma cabana de palha onde fazia suas curas. A principal entidade de sua casa é a mestra dona Chica, mas o mestre Zé do Tombo também presta serviço dentro da Jurema.


A rotina religiosa é dividida em sessão pública realizada nas terças-feiras, às 19 horas, dedicada ao culto da jurema; ao atendimento de consultas e, eventualmente, em datas especiais, canta para os orixás.


Mãe Leó – Maria Leopoldina Cavalcante Oliveira

Centro Espírita Oxum Opará

Bairro Potengi – Natal/RN

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Comunidade no Orkut

Táta Apagenacan Riá Tatêto Gongobira “ABBNZ” (Pai Marcone – Natal/RN) criou no Orkut a comunidade “Antropólogo Prof Luiz Assunção”, cujo link é:

http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=98065934


Convido-os a visitar e participar.







segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Caminhos – Exposição Fotográfica Itinerante pelos terreiros de Natal (Paths, photographic exhibition touring the terraces of Natal)



Local: Ilê Ilé Ifé Axé Òbáluàiyé

Responsável: Babá Marcelo de Òbáluàiyé

Extremoz/RN

Período: 24 a 30/01/2010

domingo, 24 de janeiro de 2010

Somos sempre a parte mais fraca (We are always the weakest part; On est toujours le maillon faible)

Umbandistas se queixam; evangélicos apoiam adiamento.

Para representantes da umbanda e do candomblé, a decisão da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, de protelar o anúncio do Plano Nacional de Proteção à Liberdade Religiosa é parte de uma tradicional marginalização das religiões afro-brasileiras. "Somos sempre a parte mais fraca de todas as raças, de todas as religiões. Estamos sempre à margem", protestou o presidente do Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo (Souesp), Milton Aguirri. O plano, que deveria ter sido anunciado anteontem, legalizaria os imóveis em que funcionam terreiros de umbanda e candomblé , além de prever o tombamento de templos dessas religiões.

Para Muniz Sodré, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, a derrota política indica a pouca representação da umbanda e do candomblé. "Os cultos afro-brasileiros jamais participaram do jogo de poder. Não têm bancada parlamentar, não têm lobby de pressão, não têm representantes na sociedade civil", disse.

O presidente da Federação Umbandista do Grande ABC, Ronaldo Linaris, encarou a suspensão do anúncio do plano como "violência à Constituição".

"Fala-se tanto em isonomia, em igualdade, mas onde está essa igualdade se estamos sendo preteridos para não melindrar evangélicos?", indagou, ressaltando o tamanho da população umbandista no Brasil. "E nós votamos, o governo não deveria se esquecer disso."


Representantes de igrejas evangélicas defendem a tese de que o governo não deveria se preocupar em legalizar os terreiros neste momento. "Em ano de eleição, mexer em questões religiosas só serve para constranger todas as partes", disse o bispo Manoel Ferreira, presidente da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil (Conamad). Ele afirmou, contudo, ser favorável ao plano. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirmou que não vai se manifestar sobre o projeto.


Fonte: www.estadao.com.br (22 de Janeiro de 2010)


Comentário de Ivanir dos Santos, integrante da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro: “Você dá concessões de rádio e televisão para os neopentecostais e me dá cesta básica e mapeamento? Eles vão usar o rádio e TV para me atacar, me chamar de demônio. Isso é desigual”, reagiu.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Mesa de Jurema (Table Jurema; Tableau Jurema)



A mesa é a principal cerimônia ritualística da Jurema, realizada em sessões reservadas de consulta ou durante as festas públicas de consagração dos juremeiros. Só os consagrados serão os eleitos a integrar uma mesa, colocando-se ao redor desta, recitando orações, cantando, balançando o maracá, fumando cachimbos, bebendo a jurema e chamando os mestres encantados. Entre os objetos rituais, no centro da mesa, colocam a princesa, mais um recipiente com água e, ao redor desta, copos e cálices com água, representando a cidade da jurema. Compõem ainda a mesa, velas acesas, cachimbos, maracás, crucifixo, sineta e a bebida jurema.

Nesta segunda-feira passada, dia 18, fui convidado por Pai Marcone (Marcone Correa Lins), do Ilê Axé Iaominlaiô Ogumxá (Loteamento José Sarney, Natal/RN), a participar dos trabalhos da abertura anual de sua Mesa de Jurema. Neste espaço religioso a Mesa é realizada semanalmente, destinada principalmente ao desenvolvimento dos médiuns e ao atendimento de sua comunidade religiosa.

O ritual começa com os cachimbos sendo acesos. Cantam o ponto de abertura da Mesa, acompanhado pelo maracá. Com a fumaça do cachimbo é feita a defumação da mesa e dos participantes.

Acendei-me estas luzes
lá no Jurema
Acendei-me estas luzes
lá no Vajucá

Oh minha Santa Tereza
pelo amor de Jesus
Oh minha santa Tereza
pelo amor de Jesus
Acendei-me esta cidade
em nome da Santa Cruz
Acendei-me esta cidade
em nome da Santa Cruz


Pai Marcone, sentado na cabeceira da mesa, vai dirigindo o ritual, cantando os pontos, que são respondidos pelos demais participantes da mesa. Os pontos cantados chamam as entidades.

Guilhermino, meu menino
chaveiro do infinito
Vai me buscar
Senhores mestres
do tronco do Juremá
Vai me buscar
Senhoras mestras
do tronco do juremá


Malunguinho abre a mesa, seguido por alguns mestres, entre os quais: Mestre Junqueira, Juliano, Maria do Acais, Zé dos Anjos e finalizando com Mestra Luziara. Em diferentes momentos conselhos e orientações são prestados, explicações sobre as entidades são ressaltadas, mas o momento mais esperado pela assistência é aquele do encontro com a entidade, o momento da consulta.

Malunguinho
Me acende um ponto
Oh Malunguinho
Me abre a mesa
Eu quero um ponto
nessa mesa
Quero um ponto
de defesa

Jurema



Fotografias de assentamentos no quarto de Jurema.
Ilê Axé Iaominlaiô Ogumxá
Responsável: Marcone Correa Lins
Loteamento José Sarney – Natal/RN

III PNDH

O Governo Federal edita mais uma versão de Decreto que regulamenta o III PNDH – Plano Nacional de Desenvolvimento Humano. Nesse documento gostaria de destacar a diretriz de número 10, que trata da Garantia da igualdade na diversidade”, através de propostas estratégicas que contemplam: a afirmação da diversidade para construção de uma sociedade igualitária; a proteção e promoção da diversidade das expressões culturais como Direito Humano; o respeito às diferentes crenças, liberdade de culto e garantia da laicidade do Estado.


É exatamente esta ultima ação que diz respeito mais diretamente as comunidades de terreiros, como especificam as ações contidas nos objetivos estratégicos VI, entre elas:


Instituir mecanismos que assegurem o livre exercício das diversas práticas religiosas, assegurando a proteção do seu espaço físico e coibindo manifestações de intolerância religiosa.


Promover campanhas de divulgação sobre a diversidade religiosa para disseminar cultura da paz e de respeito às diferentes crenças.


Desenvolver mecanismos para impedir a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União.


Estabelecer o ensino da diversidade e história das religiões, inclusive as derivadas de matriz africana, na rede pública de ensino, com ênfase no reconhecimento das diferenças culturais, promoção da tolerância e na afirmação da laicidade do Estado.


É bom destacar que este tópico apresenta contradições na medida em que, se por um lado promove a laicisação do Estado, por outro, obriga o ensino da disciplina religião.


Órgãos como a CNBB já se manifestou contrária a alguns pontos, entre eles os temas que tratam da descriminalização do aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o direito de adoção de crianças por casais homoafetivos e a proibição de símbolos religiosos em locais públicos.


O Coletivo de Entidades Negras – CEN divulgou uma nota em que manifesta sua posição sobre alguns temas tornados polêmicos, como os apresentados acima. Entende que a liberdade de culto deve ser dada a todos os segmentos religiosos de maneira igualitária, compreendendo que não cabe aos espaços públicos, laicos por excelência, ostentar nenhum símbolo religioso. A defesa dos direitos humanos no que se refere à religião tem vinculação direta com a afirmação da fé, o direito à reunião e a não discriminação de qualquer segmento ou manifestação religiosa. A nota lembra ainda, que a intolerância e o desrespeito religioso é um problema que perpassa por várias religiões e conclama a CNBB somar forças e construir uma ampla campanha que vise combater a ignorância que gera intolerância e desrespeito religioso.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Maria Bethânia - Linha de Caboclo


Maria Bethânia no show "Amor, Festa e Devoção", Canecão, Rio de Janeiro, em 24 de outubro de 2009, para lançamento do CD Encateria.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Ayahuasca, acusações e perseguições (Ayahuasca, indictments and prosecutions. L'ayahuasca, les inculpations et les poursuites)

A antropóloga Bia Labate informa de um caso enfrentado atualmente na justiça brasileira de disputa pela guarda de um filho. A mãe pertence à igreja Céu de São Miguel, uma vertente da linha do Cefluris do Santo Daime, e o pai possui a guarda dos três filhos do casal. Em recente disputa, ele passou a alegar que a mãe é uma "drogada" e que está dando "um chá alucinógeno" para o filho menor, de treze anos – acusações acatadas pela Juíza do caso.

A Resolução 5 do Conad, de 4 de novembro de 2004, situa o consumo da ayahuasca por mulheres grávidas e crianças como uma questão de "poder familiar", isto é, como parte da autonomia que os pais têm de educarem os seus filhos dentro de seus próprios parâmetros religiosos e pessoais, ou seja, a legislação não condena a prática do consumo religioso da ayahausca por adultos ou por menores em si.

A decisão da Juíza vai explicitamente contra a Resolução do Conad, desqualifica moralmente uma das partes, implicando em grave exercício de preconceito e discriminação religiosa.

Além das conhecidas acusações e perseguições históricas às religiões ayahuasqueiras em Rio Branco, Porto Velho, e outras cidades do Brasil e do mundo, onde alguns líderes e membros desses grupos foram ameaçados ou mesmo presos, quantidades da bebida confiscadas etc., há uma série de pequenos problemas cotidianos envolvendo o consumo da ayahuasca que não tem recebido a devida atenção.

Os muitos exemplos nos mostram que a legalidade do uso da ayahuasca no Brasil é ainda frágil e instável. Embora oficialmente o uso ritual e religioso desta substância seja permitido no nosso país, há várias margens cinzentas, movediças e obscuras, situações que implicam em dúvidas e questionamentos, gerando frequentemente graves conseqüências para os envolvidos.

Ainda que o Brasil seja um país pioneiro em termos das políticas públicas sobre a ayahuasca, influenciando a legislação em muitos outros países, muitas pessoas não sabem que casos como o desta mãe relatado aqui continuam arbitrariamente acontecendo Brasil afora.

Se alguém tem notícias de casos parecidos de disputa judicial pela guarda dos filhos por conta do consumo da ayahuasca, entrar em contato com a antropóloga Bia Labate.

Fonte: Trechos da comunicação encaminhada por Bia Labate - http://bialabate.net

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A cidade das mulheres (The City of Women. La cité des femmes)

Em 1939 chega a Salvador a antropóloga americana Ruth Landes, vinda da Universidade de Columbia, para realizar seus estudos de doutorado sobre as relações entre brancos e negros na sociedade brasileira.


“Era de manhã cedo, num domingo quente, de céu claro, e a cidade de dois andares da Bahia – a Cidade do Salvador – estendia-se branca e ofuscante acima das águas. Estivadores negros se aglomeravam nas docas, esperando o navio atracar. Senti-me completamente suspensa no espaço, no tempo, nos pensamentos. Quão longe, quão longe estava isto dos livros, da biblioteca e mesmo das salas de aula de Fisk!”


De início encanta-se com a Bahia e com os terreiros de candomblé. Com o apoio Édison Carneiro vai sendo apresentada as principais lideranças do candomblé baiano: Martiniano do Bonfim, Bernardino do Bate Folha, Mãe Menininha do Gantois, Joãozinho da Goméia entre outros. Freqüenta o Engenho Velho (Casa Branca), o Gantois e o Ilê Axé Opô Afonjá.


“Sabia que não seria possível estudar a Bahia como o faria com uma galeria de arte, nem com certas tribos indígenas das nossas reservations, onde se podem contratar indivíduos que se plantem numa cadeira, durante meses seguidos, e falem de si mesmos. Teria de persuadir os baianos a me deixarem participar da sua vida. Teria de abrir caminho para o fluxo humano e tornar-me parte dele. Para estudar as pessoas, deveria viver com elas, apreciá-las e procurar, constantemente, fazer com que gostassem de mim”.


A visão corrente era a de que a dominação masculina, vigente na sociedade brasileira como um todo, era também vigente nos cultos afro-brasileiros. Ao desmontar este esquema simplista, Ruth Landes mostrou a preeminência das mulheres nos cultos nagô e seu status na sociedade brasileira, a relação entre homossexualidade masculina e religiosidade afro-brasileira, como também o lugar da África na interpretação da cultura negra no Novo Mundo. A pesquisa pioneira da antropóloga e suas análises continuam merecendo atenção por parte dos estudiosos da religião afro-brasileira e da temática de gênero em particular.


“Comecei a achar que este era realmente um templo de matriarcas e que os homens, embora desejados e necessários, eram principalmente espectadores”.


Analisando a história e o contexto de vida de Menininha, como ela se refere à sacerdotisa, afirma: “crianças e homens são bem-vindos para uma mulher do templo. São a sua família – e ela cuida deles com a mesma boa vontade com que cuida do seu deus. Em troca, exige liberdade para si”.


Em um determinado momento do livro, Mãe Menininha desabafa: “Nós, as mães, somos como as casa reais, passamos o nosso cargo somente a pessoas da família, em geral a mulheres. – Sacudiu a cabeça e suspirou. – Candomblé é uma grande responsabilidade. Às vezes fico pensando se terei forças para continuar e se tenho o direito de sobrecarregar as milhas filhas com ela”.


Recentemente o documentário “Cidade das Mulheres” do cineasta Lázaro Faria aborda a trajetória da pesquisadora pelos candomblés de Salvador e evidencia o papel das mulheres nesse contexto religioso.


Referência:

LANDES, Ruth. A cidade das mulheres. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 202.

A cidade das mulheres. Documentário. Color, 72 min. Diretor: Lázaro Faria.

Documentário “A cidade das mulheres” (Documentary "The City of Women". Documentaire "La cité des femmes")

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

QUEM É DE AxÉ, DIZ QUE É (Who is AxÉ, says it is. Qui est AxÉ, affirme qu'il est)

Terezinha de Oliveira Pereira


Mãe Terezinha, 75 anos de idade, é responsável pelo Centro Cabocla Yara Vovó Sinhá, no Conjunto Soledade II, na Zona Norte de Natal. Quando tinha 20 anos de idade, problemas de saúde a levou a ser internada em um hospital para tratamento. Nesse período, ao consultar um médico, este diagnosticou que seu problema era espiritual, passando a freqüentar o Centro de seu Geraldo Guedes, no bairro de Nazaré.


Nos anos seguintes, casada, a família se mudou para Brasília, quando conheceu a Yalorixá Mãe Judite, do Centro Preta Velha Conga, com quem fez sua iniciação, tendo como orixá de frente Oxalufã. Na Umbanda fez obrigação para a Cabocla Yara.


Na década de 1980, já de volta a Natal, abriu seu espaço religioso, que passou a funcionar na sua própria residência. Participou da direção da Federação Espírita de Umbanda do RN, assumindo a função de vice-presidente do conselho.


Mãe Terezinha Pereira

Centro Cabocla Yara Vovó Sinhá

Conjunto Soledade II – Natal/RN

domingo, 10 de janeiro de 2010

Censo de 2010 e a Campanha “Quem é de Axé, diz que é”

Desde que a Campanha “Quem é de Axé, diz que é” foi lançada que vimos apoiando, seja divulgando-a nos terreiros de candomblé e umbanda da cidade de Natal, seja através deste Blog, mais especificamente na série em que semanalmente estamos publicando trechos da biografia de sacerdotes ligados a religião de matriz africana.


O texto de Marcio Alexandre M. Gualberto, Coordenador Nacional de Política Institucional do Coletivo de Entidades Negras – CEN é esclarecedor na medida em que destaca alguns pontos, entre eles o baixo índice de declarantes da religião no Censo do IBGE, conforme as estatísticas deste órgão, como a discriminação e a intolerância que acompanha os adeptos da religião no percurso de um longo processo histórico. Campanhas de combate a intolerância devem ser permanentes, no entanto é urgente a construção de estratégias que possam contribuir para a elevação da auto-estima e da identidade religiosa. Acreditamos que um dos caminhos é tornar visível o fazer religioso, enfatizando-o não apenas como uma herança cultural, mas fundamentalmente enquanto expressão religiosa dentro do campo religioso brasileiro.


A Exposição Fotográfica Itinerante pelos terreiros de Natal, que iniciamos no final de dezembro passado, por exemplo, segue esses passos, na medida em que procura instigar uma reflexão sobre o fazer religioso e contribuir para a elevação da auto-estima dos adeptos e freqüentadores dos espaços religiosos.

A seguir o texto de Marcio Alexandre M. Gualberto.