terça-feira, 29 de setembro de 2009

Uma rainha chamada Dona Militana



The queen called lady Militana

No último dia do Festival Literário da Praia de Pipa foram realizadas quatro mesas. A primeira delas abordou o tema do romanceiro potiguar, discorrido pela professora Lílian Rodrigues (UERN), sob minha coordenação. A professora iniciou sua fala conceituando o romanceiro e apresentando um modelo de classificação. Situou o campo de pesquisa no estado do RN, especificando os principais pesquisadores (Câmara Cascudo, Hélio Galvão e Deífilo Gurgel), os informantes e o material registrado. Na seqüência, falou sobre sua pesquisa com a romanceira Dona Militana, destacando a pergunta que a guiou: o que faz a romanceira guardar na memória e lembrar de tão amplo repertório de romances? Seria apenas fruto de sua capacidade mnemônica? Ao falar sobre a trajetória de vida da romanceira, vai argumentando como a construção das versões romanceadas está associada à própria vida de sua produtora, as suas experiências cotidianas, demonstrando como literatura e história de vida se entrelaçam.


Militana Salustino do Nascimento, a cantadora de romances de São Gonçalo do Amarante/RN, nasceu no povoado de Barreiros – sítio Oiteiro. Dona Militana participou de apresentações em São Paulo e Rio de Janeiro. Gravou um triplo CD (Cantares), além de participar de outros três CDs. Foi tema de ensaio fotográfico (Gestos e romances) realizado por Candinha Bezerra e tema de dois vídeos produzidos pela UFRN. Participou do Projeto Música do Brasil apresentado pelas redes MTV e Cultura. Em 2005 foi agraciada pelo Ministério da Cultura com a Ordem do Mérito Cultural, comenda inédita para uma personalidade do estado do RN.


O triplo CD/livro Cantares produzido em 2002 pelo Projeto Nação Potiguar (Fundação Hélio Galvão e Scriptorin Candinha Bezerra) contém 54 cantos, reunindo romances, xácaras, modinhas, cocos, romarias, aboios, enfim uma grande variedade de gêneros relativos à literatura oral.


Falar sobre o romanceiro leva necessariamente a abordar questões sobre cultura popular, produção cultural e patrimônio. Destacar a trajetória de Dona Militana foi a estratégia para pensar a temática. Sabe-se da existência de outros cantadores de romance no estado do RN, embora inexistam pesquisas/reflexões que os tomem como objeto de estudo no plano acadêmico. A visibilidade em torno do nome de Dona Militana se justifica pela importância do seu repertório, mas também pelo investimento produzido pelo Projeto Nação Potiguar que a foi tornando visível para o grande público. Por outro lado, é possível que à medida que foi tomando consciência de sua notoriedade, Dona Militana foi constituindo um tipo – “ela é uma rainha” –, uma performance, utilizada notadamente sempre que se encontra em situações públicas.


Mais que inventariar e registrar os elementos da cultura, como o romanceiro, é necessário produzir conhecimentos fruto de uma relação entre pesquisador e interlocutor, que seja capaz de refletir sobre as condições de vida e produção desses agentes, as representações e significados do mundo cultural e, simultaneamente, possibilitar o retorno do conhecimento produzido a essas populações, dotando-os de códigos que propiciem outros diálogos sociais.


Dica de leitura:

Rodrigues, Lílian de Oliveira. A voz em canto: De Militana a Maria José, uma história de vida. Tese apresentada do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPB. João Pessoa, 2006.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Deixa ela entrar


A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo está divulgando a estréia nacional do premiado filme “Deixa ela entrar”, de Tomas Alfredson, sucesso na Mostra de 2008.


Conforme sinopse, Oskar, um garoto ansioso e frágil de 12 anos, é freqüentemente provocado por seus colegas de classe mais fortes, mas nunca se defende. O desejo do menino solitário por um amigo se concretiza quando ele conhece Eli, uma garota da mesma idade, que se muda para a vizinhança com o pai. Séria e pálida, ela só sai de casa à noite e não parece ser afetada pelas baixas temperaturas. Coincidentemente, a cidade começa a ser assombrada por uma série de assassinatos e desaparecimentos inexplicáveis. Sangue parece ser o denominador comum a estes crimes, e para um garoto introvertido como Oskar, que é fascinado por histórias horripilantes, não leva muito tempo até ele perceber que Eli é uma vampira. Mas um romance não declarado surge entre eles, e ela lhe dá a coragem para lutar contra seus agressores. Para sempre congelada num corpo de doze anos, com todos os sentimentos e emoções confusas de uma adolescente, Eli sabe que só pode continuar a viver se seguir em frente. Mas quando Oskar finalmente vai para o confronto, ela retorna para defendê-lo usando a única arma que conhece.


Ficha Técnica:

Diretor: Tomas Alfredson

Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist, Peter Carlberg, Ika Nord.

Produção: Carl Molinder, John Nordling

Roteiro: John Ajvide Lindqvist

Fotografia: Hoyte Van Hoytema

Duração: 114 min.

Ano: 2008

País: Suécia

Gênero: Terror

Cor: Colorido

Distribuidora: Filmes da Mostra

Censura: 16 anos

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O romanceiro potiguar

Neste sábado, dia 26, às 16h, na Tenda Literária do FLIPA participo como mediador da Mesa - “O romanceiro potiguar: vida e poesia”, cuja apresentação ficará sob a responsabilidade da professora Lílian Rodrigues (UERN).


Tendo como proposta refletir sobre aspectos relacionados ao romanceiro potiguar, a professora de Literatura e Doutora em Letras pela UFPB, Lílian Rodrigues, mergulha neste gênero literário para situar as principais referências, estudos realizados, ao mesmo tempo enfatizar que este tipo de produção não está separado da existência social e cotidiana de seus produtores, ou seja, poesia e vida se entrelaçam.


O romanceiro diz respeito ao universo de poemas e canções transmitido pela tradição oral, narrando os cantos de amor, engano e sofrimento, de heroísmo, coragem e cavalheirismo correntes na vida cotidiana desde a Idade Média. De certa forma o romanceiro potiguar sempre despertou atenção por parte de alguns pesquisadores. Esses trabalhos, conduzidos por intelectuais com formações distintas, são marcados por épocas e contextos específicos.


Hélio Galvão, em pesquisa realizada no período de 1945 a 1947, nos municípios de Tibau do Sul, Goianinha e Pedro Velho, coleta 20 romances ibéricos e brasileiros, compondo um conjunto de 27 versões. Entre estes, destacam-se os romances Rico Franco, Cristiano e Paulina e D. João. O trabalho foi publicado no livro Romanceiro, pesquisa e estudo (UFRN/Proex; FHG: 1993).


A partir de 1985, o folclorista Deífilo Gurgel realiza pesquisa na comunidade de Alcaçus, no município de Nísia Floresta, coletando os romances que farão parte do livro Romanceiro de Alcaçus, publicado pela UFRN (1992). Posteriormente o autor amplia seu campo de pesquisa para o litoral leste do estado, compondo um acerco de cerca de 294 versões.


Em 2005 a professora Lílian Rodrigues apresenta tese sobre a vida e a obra de Dona Militana, a romanceira de São Gonçalo do Amarante, defendendo o quão estreitas são as relações poesia e vida na trajetória de vida e construção dessa personagem.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Periferia, margens, bordas?

O termo “cultura das bordas” foi utilizado por Jerusa Pires Ferreira ao analisar a obra do escritor paulista Rubens Luchetti. A autora fala de cultura das bordas e não das margens, para não trazer a noção pejorativa ou mesmo reversora de marginal ou de alternativa. Referem-se ao mundo da produção cultural, projetos de criação e conhecimento que inclui a lógica e a visão de mundo de um determinado grupo social onde o produtor está inserido. Como ela explica: com “bordas” quero enfatizar a exclusão do centro, aquilo que fica numa faixa de transição entre uns e outros, entre as culturas tradicionais reconhecidas como folclore e a daqueles que detêm maior atualização e prestígio, uma produção que se dirige, por exemplo, a grupos populares de vários tipos, inclusive aqueles das periferias urbanas.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

FLIPA – Festival Literário da Praia de Pipa

FLIPA – Festival Literário da Praia de Pipa

Praia de Pipa, município de Tibau do Sul/RN (70 km de Natal).

24 a 26 de setembro de 2009

Programação


Dia 24 (quinta-feira) - 17h30 – Tenda literária


Mesa 1 - “Clementino Câmara: Do nascimento em Pipa à Censura no Estado Novo”, com o professor e escritor Geraldo Queiroz e mediação do professor Humberto Hermenegildo (UFRN).

Mesa 2 “Literatura e Viagens”, com a escritora Marina Colasanti e tendo como mediadora a jornalista Josimey Costa (UFRN).

Mesa 3 – “Jornalismo, literatura, memórias”, escritora e jornalista Danuza Leão, tendo como mediador o jornalista Woden Madruga.


Dia 25 (sexta-feira) - 17h30 — Tenda literária


Mesa 1 – “Hélio Galvão: a cultura praieira”, tendo as participações de Sanderson Negreiros, Diva Cunha e Gilmara Benevides.

Mesa 2 – “A Cultura das Periferias”, com a escritora e professora Heloísa Buarque de Hollanda e como debatedor o escritor pernambucano Raimundo Carrero, mediados pelo jornalista e escritor Carlos de Souza.

Mesa 3 – “A Amazônia de Euclides”, com o escritor e jornalista Daniel Piza e mediação do jornalista e crítico literário Tácito Costa. A mesa abrirá com a exibição do documentário “Um Paraíso Perdido”, dirigido por Daniel Piza, com fotografia de Tiago Queiroz. O curta de 24 minutos reconstitui a viagem à Amazônia realizada em 1905 pelo escritor Euclides da Cunha.


Dia 26 (sábado) - 16h00 — Tenda literária

Mesa 1 - “O romanceiro potiguar: vida e poesia”, com participação da professora Lílian Rodrigues (UERN) e como mediador Luiz Assunção (UFRN).

Mesa 2 – A obra de Homero Homem de Siqueira, com a participação de Ney Leandro de Castro, Dorian Gray e Marize Castro.

Mesa 3 – “Lobão tem Razão?” Para debater com o roqueiro estará o poeta, escritor e publicitário Patrício Júnior, do coletivo Jovens Escribas, com mediação do jornalista, cantor e músico Isaac Ribeiro.

Mesa 4 – O escritor cearense Ronaldo Correia de Brito (vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura/2009) falará sobre o seu romance “Galiléia”. Participam da mesa o escritor Moacir Cirne e o jornalista Osair Vasconcelos.


Diariamente, a partir das 09 h: Tenda Pipinha Literária e Oficina de Criação literária de Raimundo Carrero.


FLIPA em números:

10 mesas literárias;

15 oficinas dentro do projeto inédito Pipinha Literária (envolvendo professores, mestres, escritores e arte-educadores);

Espaço da Livraria Siciliano;

Espaço do Sebo Vermelho;

Tenda de debates;

Espaço de autógrafos;

Lançamentos de livros, shows musicais e exposições.

Estrutura climatizada, com capacidade para 300 pessoas sentadas;


O I Festival Literário da Praia de Pipa é uma iniciativa do Governo do Estado através da Secretaria de Turismo e da Secretaria Estadual de Educação e Cultura, sob a coordenação da Fundação Cultural Helio Galvão.



domingo, 20 de setembro de 2009

A poesia de Dércio Braúna

E aos poucos vou sendo apresentado e me fazendo conhecedor de um pulsante mundo de palavras e idéias gestadas nas terras de Limoeiro do Norte/CE. É o caso do poeta e escritor Dércio Braúna e o seu querer “reencantar o mundo”. Na apresentação de um dos seus livros ele escreve: “A poesia que aqui ganha escritura (braçal orquestração de pequenas brutas coisas) se ergue desse chão. Não lhe há rosa ao caminho, sob o sol; há-lhe a ordinária erva-sem-eira; não lhe há canto, só o estrondo, os esbatidos pulsos dentro das paredes da cabeça; não lhe há delicadeza senão a precária e humana necessidade de irmos levantando ao chão aquilo que vamos a ser”.

Dos seus escritos recolho fragmentos.

De mim
Já não sei o que desaba e fere
Mas uma ainda-palavra
(ázimo pão!) me resta:
A ela me agarro
E me salvo cada dia.


Não escrevo para que me leiam
Menos ainda para que me entendam.
Se escrevo
É para que esse fio tênue
Que me ata à vida
Se não parta ainda.


Fui sempre,
Desde que a árida veia deste sol
Me testemunhou,
Erva-só.


Pegue-me teu.
Apanhe-me
O gesto
Que ponho
(entre lábios)
Em tua boca.
Tome-me
Como a um cão molente dócil
Numa manhã de tessitura cinza-branca.

Dércio Braúna participou de diversas antologias, ganhou prêmios literários e escreveu os livros “A selvagem língua do coração das coisas”(2005) e “Metal sem húmus” (2008). Contato: derciobrauna@bol.com.br

sábado, 19 de setembro de 2009

Poesia


Kelson Oliveira, meu orientando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais-UFRN, cearense, morador no vale do Jaguaribe – Limoeiro do Norte – escreveu um livro composto de nuvens e sonhos, como ele expressou no exemplar que me ofereceu, alimentado pelo cotidiano da cidade e das histórias que sua avó materna contava, para tornar-se um aprendiz de fraseador, e descobrir “quando as letras têm a cor do sonho”.


Na ponte velha


Quando uma grande laranja incandescente escorria pra dentro do mar,

meus olhos não pertenciam à outra coisa

Eu não sabia que no céu, bem sobre mim,

as nuvens desenhavam seu nome

Porque naquela época

eu também ainda não sabia

que as nuvens desenhavam nossos sonhos


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Casa de apoio aos estudos da floresta

A antropóloga Bia Labate nos manda a notícia de criação da CASA DE APOIO AOS ESTUDOS DA FLORESTA, conforme transcrevo a seguir:

A Casa de Apoio aos Estudos da Floresta (CAE – Amazon) foi comprada, reformada e inaugurada em 2009, sendo fruto de uma iniciativa da antropóloga Bia Labate com o apoio da jornalista Débora Pereira. Localiza-se na Amazônia brasileira, na comunidade do Santo Daime Centro Eclético Flor do Lotus Iluminado – CEFLI, liderada por Luiz Mendes Nascimento, no município de Capixaba (Acre), às margens do Rio Xipamano (fronteira entre Brasil e Bolívia).

A Casa foi criada com vários objetivos:
- servir de base para as pesquisas desenvolvidas pelas pesquisadoras;
- funcionar como um espaço de interlocução cultural e científica entre pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, interessados em estudos sobre a Amazônia;
- promover o acesso da comunidade ayahuasqueira à produção acadêmica sobre as religiões ayahuasqueiras brasileiras;
- incentivar a documentação escrita e visual da cultura daimista e das tradições caboclas pela população local;
- desenvolver o intercâmbio entre diferentes vertentes de usuários de plantas psicoativas;
- promover a interação da comunidade local com redes ambientais nacionais e transnacionais;
- refletir sobre as possibilidades de utilização do capital social da floresta para o desenvolvimento sustentável e a conservação da biodiversidade da região.

A CAE - Amazon já começou a construir uma pequena biblioteca, e sediou, em agosto de 2009, uma expedição experimental de pesquisadores europeus da área de psicologia e medicina. A partir de 2010, devem ocorrer novos eventos, entre eles palestras, realização de documentários e recepção de novos visitantes.

Interessados em conhecer o espaço, utilizá-lo ou contribuir com seu desenvolvimento e manutenção podem entrar em contato com Bia (blabate@bialabate.net) ou Débora (debcarpe@gmail.com).

Incentivamos especialmente a visita de pessoas voltadas ao desenvolvimento de pesquisas na região, bem como estrangeiros efetivamente envolvidos nos campos da antropologia, ecologia, espiritualidade e práticas terapêuticas. Doações para a biblioteca e sugestões são igualmente bem-vindas.

Vejam algumas fotos aqui:
http://www.bialabate.net/casa-casmerim
http://bialabate.net

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Viagem ao Acaes


Em outubro de 2003 tive a oportunidade de conhecer Acaes, em Alhandra/PB. Fui a convite de Sandro Guimarães, meu orientando, que na época realizava pesquisa na tão conhecida terra de Maria. Estive na propriedade, percorri seus espaços, como querendo sentir os caminhos vividos pela famosa catimbozeira. Conheci seus pés de jurema, a casa onde atendia a clientela, a capela, a casa da residência. Conversei com Dorinha e Beatriz e elas me mostraram a mesa de trabalho de Maria. Ainda estava lá, a princesa, o fumo, os cachimbos e as imagens de alguns santos.


Em meu caderno de campo fiz algumas anotações que transcrevo a seguir: o acesso para Alhandra se dá pela BR-101, sentido João Pessoa-Recife. O primeiro local a visitar foi à fazenda onde residiu a prestigiosa catimbozeira Maria do Acaes. Situada antes de chegar à cidade, na margem da estrada, do lado direito. Na frente da casa, está escrita Vila Maria Guimarães.


A fazenda do Acaes é formada por duas casas, um coreto e uma capela. Por traz da capela está sepultado mestre Flósculo Guimarães, filho de Maria e pai das duas moradoras e herdeiras da Fazenda.


No lado esquerdo da casa principal tem um pé de jucá. Na parte que fica por traz das casas, encontra-se a cidade da jurema do Acaes. No local estão plantadas três juremas, dos Mestres Desembaraçador, do Bom Menino e Major do Dias (sendo esta a maior). O espaço é amplo, limpo. No pé da jurema as pessoas colocam oferendas, acendem velas. Andando um pouco mais, lado direito por traz da casa principal, em direção ao rio, vamos encontrar uma casa de taipa, é a mesma construída por Maria, destinada para a realização dos seus trabalhos.


As herdeiras da propriedade não deram continuidade ao culto da jurema. Conservam as juremas cultuadas por Maria e permitem que as pessoas façam culto no local. Conservam a mesa usada por Maria nas sessões de jurema, como também alguns dos seus objetos: duas bacias que formam as princesas, maracá, dois cachimbos, uma gaita e uma cuia para beber jurema.


Do Acaes fui conhecer a cidade da jurema do Mestre Cesário, um espaço localizado em uma propriedade particular e que na época o seu dono permitia a visitação e realização de cultos. Nesse mesmo dia conheci ainda o Templo Religioso Orixá São João Batista, do Pai Edu (Josué de Deus Quaresma) e a casa de Mestre Inácio, conhecido na região por seus trabalhos de cura, com o qual tive o prazer de uma longa conversa. À noite, participei de um toque de jurema no terreiro de Mestre Ciriaco, pescador, que divide com a esposa a condução do espaço religioso. Antes da realização do toque, seguindo a tradição da casa, é realizada uma abertura em mesa de jurema. Todos os presentes são chamados a se dirigir a uma pequena sala ao lado daquela onde seria realizado o toque, iniciando-se a abertura dos trabalhos. Mestre Ciriaco conduz a mesa. Faz orações católicas pedindo proteção. Canta alguns pontos de jurema, uma espécie de “ladainha”. Faz a defumação do espaço e dos presentes. Recebe um mestre e dá proteção para todos. O toque de jurema ocorre depois da meia noite. Caboclos e mestres são chamados ao salão, conversam com os presentes, dão orientações.


Ao lado, uma sequência de fotos que fiz durante a viagem ao Acaes.

Anotações sobre o espaço no Acaes

sábado, 12 de setembro de 2009

Alaíde Costa

A bonita voz da dama da música popular brasileira Alaíde Costa na gravação de "Insensatez", feita nos anos 1970.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Acordo com Vaticano reacende polêmica sobre ensino religioso

Em 13/08 fiz a chamada para um artigo publicado no jornal Folha de SP, “Sagrada laicidade”, em que o autor, Roberto Livianu, discorre sobre as relações entre aspectos jurídicos, constitucionais e a adoção de símbolos religiosos por um estado supostamente laico.

Volto com a temática por entender a importância de seu amplo conhecimento e discussão. Dessa vez indico o artigo escrito por Fernanda Vasconcelos e Renata Rossi sobre o acordo entre o Brasil e a Santa Sé (PDC n° 1.736/09), relativo ao estatuto jurídico da Igreja Católica no Brasil. Um dos pontos do debate é o ensino religioso nas escolas públicas. Embora o artigo 11 do acordo fale em liberdade religiosa e em diversidade cultural, além de lembrar que o ensino religioso é facultativo, o fato de ter sido assinado pelo governo brasileiro e pela Igreja Católica reacendeu as discussões sobre o Estado laico, que é independente de toda e qualquer confissão religiosa. O ato bilateral foi aprovado na Câmara dos Deputados no dia 26 de agosto e segue para votação no Senado.

Ver artigo completo no link:
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=49&id=621

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Lugares de memórias

Casa Grande, em Cerro Corá/RN, espaço de minha infância.

Lugares de memórias

São José da Passagem, no município de Santana do Matos/RN, terra dos meus pais.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

domingo, 6 de setembro de 2009

Dona Dadi, uma mulher no João Redondo


Maria Iêda da Silva Medeiros, conhecida como Dadi, vive em Carnaúba dos Dantas/RN, desde os dezesseis anos. Nasceu a 4 de setembro de 1938, filha de Ricardo Alves de Queiroz e Maria Luiza da Silva, na antiga cidade de Flores, hoje Jaçanã. Casada e viúva por duas vezes, teve dezessete filhos, quatro deles criados: Maria de Lourdes, José Ricardo, Francisco das Chagas e João Maria. Calungueira. É assim que Dadi se intitula, se dedicando há mais de uma década a dar vida e voz aos seus bonecos, que se destacam pelas formas, cores e personagens. Além de artista-artesã, Dadi é também poetisa. Através de sua narrativa, o leitor compartilha de seus afetos, amores e dores, das adversidades para viver e se manter, de seus sonhos, projetos futuros. Esse livro de poesia não poderia ter outro título que não "Flor de Mucambo". Uma de suas flores preferidas, ela diz de sua obstinação como mulher, mãe, avó, artista, sindicalista, cidadã do mundo. Diz mais. Que independente do lamento de ter "pouco estudo" Dadi com seu saber-fazer, anuncia que poesia também deve ser ensinada nas escolas (texto da Apresentação do livro Flor de Mucando).

O livro Flor de Mucambo foi organizado pela professora Wani Fernandes Pereira para a Coleção Metamorfose, do Grupo de Estudos da Complexidade - UFRN.

Referência:
MEDEIROS, Maria Iêda da Silva. Flor de Mucambo. PEREIRA, Wani (org.). Coleção Metamorfose, v.3. Natal: Flecha do Tempo, 2006.

sábado, 5 de setembro de 2009

Encontro com Chico Daniel


Em 2003 Ricardo Canella organizou em sua residência um encontro do Grupo de Estudos sobre Culturas Populares com Chico Daniel. Na foto, Luiz Assunção, Chico Daniel, Ricardo Canella, Rafaela Menezes, Diogo Moreno, Paulo Marcelo e Ilnete Porpino.

O João Redondo de Chico Daniel


João Redondo é a nominação que toma o teatro de bonecos no Rio Grande do Norte. Na Bahia, ela é Mané Gostoso; Babau, na Paraíba; João Minhoca, em Minas Gerais; Mamulengo, em Pernambuco; Cassimiro Abreu, no Ceará.

Câmara Cascudo, em o Dicionário do Folclore Brasileiro, define o João Redondo como uma espécie de divertimento popular, que consiste em representações dramáticas, por meio de bonecos, em um pequeno palco.

O enredo do João Redondo é fragmentado em diversas histórias e o herói da brincadeira é o escravo Benedito, conhecido pelo nome de Baltazar. Além deste, outros personagens compõem a brincadeira: Capitão João Redondo, Etelvina, Policiais e Padre.

No RN alguns mamulengueiros tornaram-se conhecidos por sua arte: os irmãos Relampo (Zé, Miguel e Antônio), de Serra Caiada; Chico Rosa, de São Paulo do Potengi; seu Bastos, de Currais Novos; Chico Daniel, de Açu, entre outros.

Em 2004 Ricardo Canella defende dissertação no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN tendo como objetivo compreender como se efetua o processo de construção das personagens no João Redondo de Chico Daniel.

Francisco Ângelo da Costa – Chico Daniel – nasceu em Açu/RN no dia 05 de setembro de 1941. Seu pai, Daniel, era também brincante, com quem Chico aprendeu a arte do mamulengo, herdando inclusive alguns bonecos, como gostava de lembrar.

A dissertação de Ricardo Canella está estruturada em quatro capítulos. No primeiro, discorre sobre a descoberta do tema e o encontro com Chico Daniel. O brincante fala sobre sua trajetória de vida e levanta questões sobre o que é brincar o João Redondo. No segundo capítulo, vai se dedicar a refazer os itinerários do teatro de bonecos desde trajetos mais remotos até sua chegada ao Brasil e sua transformação em brincadeira de João Redondo no solo potiguar.

No capítulo três, vai se dedicar ao João Redondo vivido por Chico Daniel. Destaca seu fazer como original, tomando os personagens e a histórias como exemplares. Segundo a idéia do autor, o brincante ao longo de sua trajetória vai desenvolvendo uma técnica muito específica em torno de sua brincadeira. Para demonstrar, Canella analisa alguns elementos que compõem a apresentação: bonecos, figurinos, adereços, texto, oralidade, cenografia, improviso, entre outros.

O capítulo quatro vai tratar especificamente da construção das personagens no João Redondo de Chico Daniel. Ressalta que a personagem no teatro de bonecos é uma personagem tipo, convencionada socialmente, com características físicas e morais geralmente identificadas pela platéia. Por sua vez, estes personagens estão vinculados a uma memória histórica perpetuada pela tradição e permanentemente atualizada. Canella vai então demonstrando as características de cada personagem através de suas análises e das leituras que faz de outros autores, como das histórias elaboradas pelo brincante. Dessa forma os personagens vão ganhando vida nas páginas da dissertação: Baltazar, Dr. Pindurassaia, Etelvina, Capitão João Redondo, Boi Coração, Mestre Guedes, o Malandro de coca-cola, o Padre, Dr. João Bondado, Cassimiro Coco, Tenente Bezerra de Melo, Pedro Marinheiro, João Guedes e o Cachaceiro.

Chico Daniel, cidadão natalense, faleceu em 2007.

Referência:
CANELLA, Ricardo. A construção da personagem no João Redondo de Chico Daniel. Dissertação de Mestrado. Natal: UFRN/PPGCS, 2004.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Teatro de Bonecos Popular do Nordeste. Encontro João Redondo do Rio Grande do Norte

Encontra-se em andamento, no Departamento do Patrimônio Imaterial do IPHAN, o projeto referente à instrução técnica do processo de registro do Teatro de Bonecos Popular do Nordeste – Mamulengo, Babau, João Redondo e Cassimiro Coco, como Patrimônio Cultural do Brasil. O pedido do Registro foi encaminhado ao IPHAN, em abril de 2004, pela Associação Brasileira de Teatro de Bonecos – Centro UNIMA Brasil.


Em sua etapa inicial, o referido projeto visa realizar a pesquisa documental e de campo destas expressões populares e vem sendo implementado sob a orientação IPHAN, contando ainda com o apoio de instituições diversas, entidades da sociedade civil, pesquisadores, artistas e bonequeiros em geral. O projeto é operacionalizado por equipes de pesquisa formadas nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e no Distrito Federal, sob uma coordenação geral especializada.


Como parte fundamental deste processo está sendo realizados Encontros em cada um dos estados abrangidos pela pesquisa, com os objetivos de divulgar e discutir o andamento do processo de Registro e seus desdobramentos, fomentarem parcerias, além de promover e valorizar essa prática em cada localidade onde ocorre.


O Encontro de João Redondo do RN visa reunir brincantes, pesquisadores, agentes públicos e demais interessados no debate e na salvaguarda dessa forma de expressão. Mestres potiguares estarão presentes para apresentar e conversar sobre sua arte (Texto de Apresentação do folder do evento).


A pesquisa no RN está sendo feita a partir de uma parceria com o Grupo de Estudos sobre Culturas Populares do Departamento de Antropologia da UFRN, tendo como coordenador Ricardo Canella e assistente de pesquisa Maria das Graças Pereira, membros do referido grupo de estudos.


De 03 a 06 de setembro de 2009.


Atividades diurnas – 08:30 h: Marina Travel Praia Hotel – Praia dos Artistas – Natal/RN

Apresentações – 19:30 h: Largo do Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão – Ribeira – Natal/RN


Apresentações dos mestres: Dadi, Heraldo Lins, Tio João da Quadrilha, Raul do Mamulengo, Josivan, Geraldo Maia, Antonio Targino, Daniel, Caçua de mamulengos, Manuel Pereira, Antônio de Rosa, Manuel Dadica, Emanuel Amaral, Manoel Messias, Geraldo Zacarias, Pedro da Silva, Marcelino de Zé Limão, João Viana, José Targino Filho, José de Rosa, Luis de Toou e Francisquinho.